Aula 03 A importância dos fenômenos psicológicos para o direito

TEMA: A importância dos fenômenos psicológicos para o direito

 

Nossa aula foi:

quarta-feira, 14 de setembro de 2022.

METODOLOGIA:

O objetivo dessa aula é compreender alguns tipos de análise que a Psicologia realiza para compreender os fenômenos, objetos de seu estudo.

Para tanto, nos serviremos de aula expositiva, com base na leitura de texto e veremos os tipos de análise que a Psicologia realiza para compreender os fenômenos, objetos de seu estudo, como por exemplo, as características desabonadoras presentes no Sr. Jorge em nossa situação-problema. Também verificar a importante do estudo da ciência psicológica para a formação dos futuros profissionais do Direito.

 

MATERIAL:

Texto A importância dos fenômenos psicológicos para o direito

 

Diálogo aberto

 

Saudações, futuro operador do Direito!

Vimos na AULA 2 algumas abordagens teóricas da Psicologia, mostrando o quanto ela é complexa e abrangente para explicar o comportamento das pessoas. Vamos dar continuidade a nossa unidade. Na AULA 3 apresentaremos a você um pouco da maneira como a Psicologia estuda a ocorrência dos fenômenos psicológicos. Você verá que muitas dessas situações podem gerar incômodo para as demais pessoas e fatalmente poderão resultar em processos na justiça, situações com as quais você certamente irá se deparar em sua prática profissional.

 

E por falar em profissional, se você estudou nossa última aula já deve conhecer a nossa amiga Renata. Ela é advogada recém-formada, como você logo será, e está atendendo sua primeira cliente, a Dona Célia, senhora bem humilde que pede ajuda a nossa querida Dra. para não perder a guarda de seus filhos. O ex-marido da Dona Célia requer em juízo a guarda dos meninos, alegando que a mãe não dispõe de “condições mentais e emocionais” para cuidar deles de forma adequada.

 

Renata sabe que essas supostas “condições mentais e emocionais” precisam ser devidamente comprovadas pelo parecer de um especialista. Ela sabe que o juiz irá nomear um perito formado em Psicologia.

 

Agora vamos conhecer a situação-problema desta seção:

 

O juiz do caso convocou a psicóloga Marina para atender como perita, e apesar das diferenças de orientação teórica entre ela e a psicóloga assistente técnica que Renata convidou, conforme visto na AULA 2, Marina deu continuidade ao trabalho e, passados mais 15 longos dias de espera, Marina enfim envia seu laudo.

 

No laudo emitido, resultado das entrevistas da psicóloga com Célia, com o ex-marido e com as crianças, além da aplicação de testes e outros trabalhos de avaliação, Marina não constata elementos que configurassem qualquer fenômeno psicológico que desabonasse a conduta da Sra. Célia enquanto mãe e guardiã de seus filhos.

 

Porém, Marina constatou algumas características desabonadoras no pai das crianças, Sr. Jorge. No laudo, Marina é categórica: “o Sr. Jorge apresentou um comportamento instável, com histórico de alcoolismo, obsessividade e comportamento antissocial”.

 

Essas “características desabonadoras” foram fenômenos observados por uma profissional da área que fundamentou suas observações com base no que a Psicologia conhece sobre os fatores causadores dessas características.

 

É importante que você, futuro operador do Direito, conheça os elementos que geram estes fenômenos para que possam atuar com seus clientes de forma plena, sabendo identificar quando situações de origem psicológica, orgânica ou social podem influenciar no comportamento e nas funções mentais dos personagens envolvidos no ambiente jurídico.

 

Apesar do juiz não ter formulado qualquer decisão até agora sobre a guarda das crianças, parece certo que o laudo emitido pela psicóloga Marina irá decidir os rumos dessa disputa. Com base neste fato, você percebe o quanto a Psicologia é importante para o trabalho do operador do Direito, e por que é importante conhecê-la e estudá-la. Já que isso é essencial para que Dona Sônia fique com a guarda das crianças.

 

Convidamos você a fazer a leitura desta AULA para que possa aprender um pouco mais e compreender:

 

1 - Quais os tipos de análise que a Psicologia realiza para compreender os fenômenos,

objetos de seu estudo, como por exemplo, as características desabonadoras presentes

no Sr. Jorge em nossa situação-problema;

2 - Por que é tão importante o estudo da ciência psicológica para a formação dos

futuros profissionais do Direito?

 

Vamos lá?

 

FENÔMENOS PSICOLÓGICOS E SUA IMPORTÂNCIA

 

Para compreendermos o que são fenômenos psicológicos, acreditamos ser importante iniciar nosso estudo buscando entender a palavra “fenômeno”.

 

Vocabulário

 

Fenômeno (fe.nô.me.no)

1. Fato, acontecimento ou processo que pode ser observado na natureza ou na sociedade. (AULETE, Caldas. Minidicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.)

 

A Psicologia, enquanto ciência, observa “fatos, acontecimentos e processos na natureza” e “na sociedade”, para explicar fatos que ocorrem dentro do universo do comportamento humano e das funções mentais.

 

Em nosso cotidiano observamos muitos fatos de natureza psicológica que podem gerar demandas para o Direito por causa das consequências desagradáveis que esses fatos podem causar às pessoas e à sociedade, e que podem se tornar desviantes do que está previsto pela norma legal.

 

Nas manchetes de jornal e nos romances policiais assistimos a muitas “tragédias”, grande parte delas causadas por estados emocionais alterados, por percepções distorcidas da realidade, por alterações provocadas por substâncias como o álcool, as drogas e até por oscilações hormonais, além do contexto sociocultural que induz a pessoa ao cometimento do comportamento inadequado.

 

As origens dos comportamentos desviantes e das funções mentais inadequadas não são fáceis de serem compreendidas, pois no curso de nossas vidas, somos influenciados por inúmeros fatores que irão alterar nossos estados psicológicos. Nascemos com um componente genético que pode determinar um padrão psicológico, nossos estados emocionais podem ser influenciados pelos nossos hormônios e pelas substâncias que ingerimos. Também sofremos forte influência dos modelos sociais, da cultura, das religiões, das leis, das condições sócioeconômicas como a pobreza, a miséria ou mesmo a demasiada riqueza, tudo isso influindo em nossos estados psicológicos.

Maísa 

Quando a Psicologia se desprendeu de sua origem filosófica e começou a explorar o seu atual campo de estudo, mais focado nas ciências da saúde, se deparou com muitos fenômenos que intrigavam aqueles primeiros “pesquisadores da mente”.

 Paulo Henrique

Se para identificar um resfriado, uma diabetes ou uma gravidez, exames clínicos e de laboratório são suficientes, como podemos diagnosticar com precisão um quadro de depressão, de ansiedade ou de psicose?

 Michele

O modelo biomédico, predominante até meados do século XX, derivado de uma concepção mecanicista de ciência, não foi capaz de explicar a ocorrência de muitos fenômenos próprios da Psicologia, pois faltava a compreensão de elementos psicológicos e sociológicos.

 Andressa

Esta limitação conceitual criou muitas situações injustas para doentes mentais que sofriam com os males de causas desconhecidas pela Medicina da época, ficando condenados a confinamentos forçados em hospícios, manicômios e estabelecimentos prisionais.

Vocabulário

Mecanicismo (me.ca.ni. cis.mo)

1. Fil. Corrente de pensamento para a qual os fenômenos, e até a própria natureza, estão submetidos a processos mecânicos de determinação;

MAQUINISMO:

2. Biol. Doutrina pela qual os seres vivos podem ser explicados e compreendidos por meio de uma série de causas e efeitos de origem físico-química.

(AULETE, Caldas. Minidicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2009.)

 Nara Rúbia

Enfim, o filósofo e psicólogo Michel Foucault (1926-1984) foi um dos primeiros teóricos a questionar essa concepção médica mecanicista e reducionista dos fenômenos psicológicos, propondo em sua primeira obra “Doença mental e Psicologia” (1954) um modelo no qual pudesse integrar os fatores médicobiológicos a outras variáveis, como os elementos sociais e fatores propriamente psicológicos, para ampliar o conceito de loucura versus normalidade.

 

Foucault foi um grande crítico dos processos de institucionalização forçada de pessoas como meio de controle social. Em sua obra “A História da Loucura na Idade Clássica”, este filósofo descreve como a sociedade lidava com os seus “loucos”, do início do século XV até os hospitais psiquiátricos dos dias de hoje. Que tal ler um pouco mais sobre esse interessante assunto? FOUCAULT, M. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

Hevelyn

Com a evolução da Psicologia, o descobrimento de novas tecnologias de mapeamento cerebral, bem como o desenvolvimento de novos fármacos mais eficazes para tratamentos de desordens mentais e comportamentais, a própria Medicina começou a dar a devida e necessária atenção para a existência de múltiplos fatores para explicar a ocorrência dos fenômenos psicológicos, surge então uma nova proposta de abordagem dos transtornos mentais, chamada de MODELO BIOPSICOSSOCIAL, segmentada em três níveis de análise, dos quais iremos tratar a seguir:

 

Níveis de análise dos fenômenos psicológicos

Bruna

A primeira proposição de um modelo biopsicossocial de análise dos fenômenos da mente sob uma perspectiva médica foi feita por Engel (1977), em um artigo da revista Science na qual aponta as limitações do estudo da doença/saúde mental pelo modelo biomédico, propondo uma visão mais ampla, integrando o modelo biopsicossocial de análise psicológica.

 

Neste item iremos abordar cada elemento componente deste modelo, apresentando os níveis de análise dos fenômenos psicológicos.

 

O NÍVEL BIOLÓGICO

Akauene

Nosso comportamento e todas as nossas funções mentais são determinados pela estrutura orgânica da qual somos formados. Carregamos um legado genético enquanto espécie humana e enquanto indivíduo que determinam as predisposições comportamentais. Nosso sistema nervoso é composto por estruturas que podem se alterar em decorrência de inúmeras condições internas, (como as alterações dos níveis hormonais e acidentes vasculares) e externas (como o abuso de álcool ou drogas, além das lesões nas áreas cerebrais provocadas por acidentes) que podem resultar em alterações em nosso funcionamento psíquico.

Livia

Muitas substâncias como a cocaína e as anfetaminas são responsáveis pela desinibição do comportamento, na maior parte das pessoas, estimulando a coragem para uma ação ousada ou mesmo irresponsável. Outras drogas como o Ácido Lisérgico (LSD) podem gerar alucinações em seus usuários, podendo criar situações de risco ao usuário e às pessoas à sua volta devido à distorção da realidade. O álcool prejudica os reflexos, podendo causar muitos acidentes, fazendo vítimas e gerando prejuízos morais e materiais.

 Rene

Sobre esse aspecto é importante destacar o impacto que os efeitos de certas substâncias podem causar no organismo humano, e que fatalmente poderão resultar em demandas jurídicas em razão das consequências das ações desatinadas provocadas por estes componentes químicos.

Um outro fator orgânico causador de muitas situações que podem se tornar objetos de aplicação da justiça, são as alterações hormonais. Muitos são os casos relatados pela Psicologia e pelo Direito em que alterações do hormônio adrenalina agravaram situações de tensão, de confronto, criando situações que precisaram ser solucionadas pela via jurídica. Também são muito frequentes os casos de mães que em estado puerperal cometeram infanticídio movidas pelo descontrole de seus níveis hormonais.

 Rebeca

Além dos aspectos relacionados aos elementos químicos que interferem no comportamento do indivíduo, é importante também falarmos da parte estrutural do organismo. Com a evolução das pesquisas de mapeamento do funcionamento de áreas cerebrais, graças a técnicas modernas como a ressonância magnética, as neurociências cresceram significativamente e também são considerados campos de estudo importantíssimos para compreender algumas condutas desviantes sob o aspecto psicológico.

 

Um grande exemplo disso é a relação entre o córtex pré-frontal, uma área situada na parte da frente do cérebro e a personalidade.

Warley

Um caso muito conhecido na literatura médica relata a história de Phineas Gage (1822-1861), operário americano que após um acidente com explosivos teve seu cérebro perfurado por um vergalhão de ferro exatamente na região do córtex pré-frontal. Após rápida e surpreendente recuperação, não foram constatadas quaisquer sequelas físicas ou sensoriais decorrentes deste trauma, porém o comportamento de Phineas mudou radicalmente.

 

Se antes Phineas era uma pessoa ponderada e afável com as pessoas, este se tornou desonesto, imoral e irritadiço, perdeu o emprego e, segundo alguns amigos mais próximos “não era mais ele mesmo”, sob o aspecto emocional.

 

O caso Phineas Gage se tornou um marco para compreender o funcionamento do córtex pré-frontal e apontou para uma forte relação entre aspectos da personalidade e essa região do cérebro humano.

 

Entretanto e infelizmente, nem todas as desordens psíquicas são facilmente identificáveis por uma análise de mapeamento cerebral, como no caso de Phineas Gage.

https://www.youtube.com/watch?v=K2YFNVxbu9U

 

O cérebro humano é muito complexo e existem elementos estruturais do sistema nervoso que, sabidamente, podem gerar transtornos mentais e comportamentais, mas que ainda não foram devidamente mapeados e identificados, sabe-se somente que são orgânicos devido à probabilidade genética da ocorrência, em filhos de pessoas doentes, como é o caso da esquizofrenia e do mal de Alzheimer.

 

O NÍVEL PSICOLÓGICO

Istefani

Este nível de análise é aquele que compreende os aspectos comportamentais e das funções mentais e é objeto de estudo dos teóricos em Psicologia.

 

Não iremos discorrer em pormenores sobre os assuntos tratados neste nível, uma vez que esse tema será abordado em todas as unidades e seções do livro didático.

 

É importante destacar que aspectos psicológicos envolvem situações como as fobias, medos aprendidos em situações de estresse intenso e/ou traumas, que podem ser tratados em sessões de terapia.

 

Esse nível também aborda situações de respostas emocionais em decorrência de experiências e vivências passadas, além das interpretações perceptuais sobre determinadas situações, que podem gerar problemas de relacionamento e bloqueios na compreensão e no processo de aprendizagem.

 

É claro que o nível de análise psicológico vai muito além do que está sendo abordado nessa seção, futuramente iremos abordar em detalhes aspectos da personalidade noutros momentos de nossas aulas e aspectos do comportamento e funções mentais na também mais à frente. Será um prazer conversarmos sobre esse tema.

 

O NÍVEL SOCIAL

Mariele

Nosso ser racional controla nossos impulsos herdados pela origem biológica enquanto espécie e faz com que deixemos de fazer certas coisas que os animais fariam, mas que são moralmente questionáveis para o homem que vive em sociedade, como, por exemplo, o canibalismo ou o incesto.

 

A dualidade razão versus instinto, e o domínio desta sobre este, justifica em parte nosso controle interno, nos impedindo de agir conforme nossas vontades.

 

Aristóteles desenvolve essa ideia em suas formulações sobre Ética. Para esse filósofo, o homem feliz é aquele que desenvolve sua virtude moral, buscando o equilíbrio, o meio-termo entre a razão e a emoção. Ele entendia o desenvolvimento da virtude moral como a prática do bem fazer, aprendida externamente pelo hábito, com o convívio com o meio social, porém fazia-se necessário um componente interno, uma escolha voluntária que seria o grande motivador para a busca e a assimilação desta virtude moral.

 

Exemplificando

Rubiane

Um artista ao pintar seu quadro pode estar sublimando sua pulsão sexual, canalizando sua energia libidinosa em uma atividade socialmente aceita.

 

Como podem observar, o fator social também é determinante para a ocorrência de fenômenos de interesse de estudo da Psicologia. Como já foram expostos os três níveis de análise para compreender os fenômenos psicológicos, vamos agora uni-los num modelo único, visando apresentar qual a proposta atual de modelo de identificação dos fatores que geram saúde/doença psicológica.

O modelo de análise biopsicossocial Você conheceu os três níveis de análise da Psicologia que buscam compreender os elementos causadores dos fenômenos psicológicos como a tristeza, a paixão, a ira dentre outras manifestações. Apesar de você ter conhecido estes níveis separadamente, não é possível apontar determinado fenômeno como causa única e exclusiva de um determinado nível de análise, ou seja, nenhum fenômeno será causado exclusivamente por fatores biológicos ou fatores sociais ou fatores psicológicos, mas sim por uma combinação destes três fatores.

 Camyla

Somos resultado dos componentes biológicos que nos estruturam, interagindo com o ambiente social que molda nossa unidade como ser humano e que vai definindo nossa essência, nosso componente psíquico. Os três níveis de análise são fatores complementares e inseparáveis que definem quem somos e que vão definir a ocorrência dos diversos fenômenos psicológicos manifestados por nós enquanto componentes da sociedade.

 

O modelo de análise biopsicossocial tem como objetivo apresentar um novo paradigma, no qual os fatores sociais e psicológicos complementam a visão biológica para definir o conceito de saúde mental e a ocorrência dos fenômenos psicológicos, objetos de estudo da Psicologia e do Direito enquanto comportamento.

 

A importância do estudo da psicologia para os futuros profissionais do direito

Rayssa

Você viu que a Psicologia é uma ciência que precisa ser compreendida sob diferentes perspectivas e que os fenômenos presentes no dia a dia das pessoas precisam ser compreendidos sob diferentes níveis de análise. Portanto gostaríamos de exemplificar algumas situações em que observamos fenômenos psicológicos manifestados em diferentes contextos dentro do ambiente jurídico. Observe como podemos identificar os diferentes níveis de análise nos exemplos a seguir:

 

Exemplificando

- Nível de análise psicológico - Patrícia desenvolveu um quadro de síndrome do pânico e se encontra afastada de seu trabalho. Tal situação foi desencadeada em seu local de trabalho, um supermercado, quando foi vítima de violento assalto à mão armada. Patrícia pensa em processar seu empregador, solicitando indenização por danos morais em decorrência do dano psicológico laboral.

 Emilya

- Nível de análise biológico - Fábio responde criminalmente por homicídio por ter esfaqueado a própria mãe. Seu advogado alega doença mental, pois, segundo versão do réu, este disse ter ouvido vozes induzindo-o a cometer tal crime. Fábio já passa por tratamento psiquiátrico para tratar dos sintomas desse mal e possui dois tios com o mesmo problema.

 

- Nível de análise social - João foi preso por tentar furtar um pacote de biscoitos de um grande supermercado no centro de uma grande cidade. Em depoimento, alega que nunca havia cometido qualquer crime e que só o fez porque não tinha mais dinheiro para comprar comida e seu filho de sete anos estava chorando de fome. Movido pelo desespero, João agiu de forma precipitada e quando rendido pelos seguranças do supermercado não esboçou qualquer reação.

 Encerra a parte da Emilya

Você percebeu como a relação entre fenômenos psicológicos e situações em que o Direito é acionado é bastante estreita?

 

O fato é que fenômenos Psicológicos são manifestações do comportamento das pessoas, e essas pessoas estão inseridas em um contexto social e, nesse contexto, existem organizações estatais que estabelecem normas que devem ser cumpridas para o bem-estar da coletividade.

 

É aí que percebemos o quanto é importante que o operador do Direito conheça a ciência psicológica, pois tanto a Psicologia quanto o Direito têm como objeto de estudo o COMPORTAMENTO, mudando somente o enfoque.

 

Enquanto a Psicologia observa, categoriza e trabalha o comportamento observável, o Direito busca regular e controlar este comportamento, visando adequar o cidadão às normas estabelecidas pela organização social.

 

Comportamentos inadequados sempre deverão gerar uma resposta da sociedade, e é aí que o Direito precisa se utilizar da Psicologia, para que esta possa, dentro de uma perspectiva biopsicossocial, identificar os fenômenos psicológicos que deverão ser regulados pela norma jurídica.

 

Este movimento de compreensão dos fenômenos psicológicos dentro do estudo do Direito é mais antigo no Brasil do que o próprio surgimento da Psicologia, enquanto profissão. Um exemplo está na implantação de aulas de Psicologia nas faculdades de Direito, nos anos 30 do século XX, em algumas universidades brasileiras, para compreender o cometimento de crimes e a internação dos doentes mentais em instituições psiquiátricas.

 

Naquela época, a Psicologia buscava compreender aspectos relacionados às desordens mentais e era mais uma das linhas de estudo das ciências criminológicas.

 

Atualmente a compreensão de desordens psicológicas como fator gerador do cometimento do crime encontra respaldo na justiça e serve para definir, entre outras coisas a imputabilidade do autor que sofre de doença mental e outros distúrbios de ordem psíquica e emocional, como, por exemplo, o cometimento de crime de infanticídio no estado puerperal.

 

Uma outra aplicação da Psicologia no âmbito penal está na intervenção junto às instituições prisionais, no trabalho de ressocialização do preso e na análise do perfil psicológico para concessão de benefícios como a liberdade condicional.

 

Hoje, no âmbito das varas da infância e da juventude, por força do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), vemos uma demanda crescente por psicólogos para analisar situações de risco social e maus tratos aos quais crianças e adolescentes são submetidos. O laudo psicológico emitido pode definir a concessão ou a destituição do poder familiar em decorrência de circunstâncias que signifiquem transgressões ao ECA, como abusos, maus tratos e outras situações em que exponha a criança e o adolescente às situações de sofrimento que possam prejudicar seu pleno desenvolvimento.

 

O psicólogo, assim como no sistema carcerário, também atua nas instituições em que são implantadas as medidas sócio educativas, buscando auxiliar no pleno desenvolvimento dos menores infratores.

 

Uma outra área de atuação da Psicologia está em varas de família, locais estes em que são constantes as disputas judiciais por guarda unilateral de filhos de pais separados, por exemplo. Cabe ao psicólogo definir qual dos pais possui um perfil psicológico mais adequado para oferecer condições de pleno desenvolvimento do(s) filho(s) envolvidos. Candidatos a pais adotivos também passam por avaliação de psicólogos, para poderem se enquadrar na condição de pais aptos para adoção.

 

Ainda na esfera civil, a Psicologia busca avaliar objetivamente as causas para uma interdição por problemas mentais, intelectuais ou ainda por algum tipo de doença psíquica para justificar a incapacidade civil de alguém.

 

Em varas do trabalho e no Direito previdenciário, encontramos muita demanda para comprovar nexo causal entre doença mental e condições de trabalho. Atualmente há um entendimento sobre doenças psíquicas decorrentes de condições que possam gerar sofrimento mental, como nos casos de assédio moral e assédio sexual, e o psicólogo pode atuar na identificação dessas condições tanto para dar ganho de causa para as partes reclamantes quanto para auxiliar a pessoa acometida de doença mental, para a concessão de benefício previdenciário junto ao instituto de previdência responsável.

 

É importante destacar que a aplicação da Psicologia no âmbito jurídico não se resume somente ao ambiente forense. Como já dito anteriormente, a Psicologia atua nos sistemas prisionais e de recuperação de jovens infratores, além de atuar nas delegacias de polícia no acolhimento de pessoas vítimas de crimes, nos departamentos estaduais de trânsito (Detrans) atestando a capacidade para a condução de veículos automotores, além de órgãos como a Polícia Federal e o Exército Brasileiro, para atestar a aptidão para o uso de arma de fogo tanto para a compra quanto para o porte destes produtos controlados.

 

Como podem ver, o campo de trabalho do Direito em que a Psicologia também está envolvida é bastante vasto, justificando a necessidade desta como objeto de estudo do futuro profissional do Direito.

 

Podemos afirmar que apesar da Psicologia ser uma profissão regulamentada, ela também é uma ciência, e como tal, não pode ficar restrita ao conhecimento exclusivo de um profissional. Por isso, é importante que o futuro operador do Direito se aproprie desse saber produzido pelos teóricos e pesquisadores da Psicologia, para que sirva de ferramenta para embasar sua prática profissional, para que possa melhorar a qualidade dos serviços prestados e seja também, não só um promotor da justiça, mas também um promotor da saúde mental de seus clientes e de toda a sociedade.

 

Nas últimas aulas dessa disciplina, iremos dar continuidade a esse assunto falando sobre as interfaces entre Psicologia e Direito, que entre tantos assuntos abordados, falaremos da importância que o estudo dos fatores psicológicos antecedentes ao cometimento de crime exerce para o desenvolvimento do estudo da Criminologia.

 

Podemos lhe esperar? Então até lá!

 

VOLTANDO À QUESTÃO PROBLEMA

 

Vamos voltar para a história do começo da aula. Vocês se lembram de nossa amiga Renata? Vamos voltar à situação-problema:

 

O juiz do caso convocou a psicóloga Marina para atender como perita e, apesar das diferenças de orientação teórica entre ela e a psicóloga assistente técnica que Renata convidou, conforme visto na AULA 2, Marina deu continuidade ao trabalho e, passados mais 15 longos dias de espera, Marina, enfim, envia seu laudo.

 

No laudo emitido há o resultado das entrevistas da psicóloga com Célia, com o ex-marido e com as crianças, além da aplicação de testes e outros trabalhos de avaliação, Marina não constata elementos que configurassem qualquer fenômeno psicológico que desabonasse a conduta da Sra. Célia enquanto mãe e guardiã de seus filhos.

 

Porém, Marina constatou algumas características desabonadoras no pai das crianças, Sr. Jorge. No laudo, Marina é categórica: “o Sr. Jorge apresentou um comportamento instável, com histórico de alcoolismo, obsessividade e comportamento antissocial”.

 

Essas “características desabonadoras” foram fenômenos observados por uma profissional da área, que fundamentou suas observações com base no que a Psicologia conhece sobre os fatores causadores dessas características.

 

É importante que você, futuro operador do Direito, conheça os elementos que geram esses fenômenos para que possa atuar com sua clientela de forma plena, sabendo identificar quando situações de origem psicológica, orgânica ou social podem influenciar no comportamento e nas funções mentais dos personagens envolvidos, no ambiente jurídico.

 

Apesar do juiz não ter formulado qualquer decisão até agora sobre a guarda das crianças, parece certo que o laudo emitido pela psicóloga Marina irá decidir os rumos dessa disputa. Com base nesse fato, você percebe o quanto a Psicologia é importante para o trabalho do operador do Direito, e por que é importante conhecê-la e estudá-la. Isso é essencial para que Dona Sônia fique com a guarda das crianças.

 

🔖ATIVIDADE AVALIATIVA🎒

Participação geral no debate e esclarecimento acerca do tema em questão.