TEMA: Introdução à Psicologia
Nossa aula foi:
MATERIAL
CONTEXTUALIZAÇÃO
HISTÓRICA
Renata, advogada recém-formada conduz Célia, sua primeira
cliente, para uma consulta com Marina, psicóloga nomeada como perita judicial
em ação que determinará se Célia continuará com a guarda de seus filhos.
Enquanto Renata dirige seu carro a caminho do consultório, ela esclarece para
sua cliente:
- Célia, você irá conversar um pouco com a psicóloga
nomeada pelo juiz, a Dra. Marina. Você deverá responder a todas as perguntas
que ela fizer. Isso vai ajudar ela te conhecer melhor. Fica tranquila, pois eu
sei que você não tem nenhum problema psicológico, mas ela é psicóloga e vai
poder confirmar isso por meio de um relatório.
Muito desconfiada, Célia não vê com bons olhos o fato de
estar sendo avaliada por psicólogos nesta disputa judicial, pois ela vê o
psicólogo como uma espécie de “médico de doido” e acredita que nunca fez algo
desatinado que justificasse este tipo de constrangimento.
- Será que ela pode achar alguma loucura na minha cabeça,
Doutora? – pergunta Célia. Será que ela pode me internar num hospício?
Imagine-se no lugar de Renata. Que resposta você poderia
dar para a sua cliente caso ela lhe fizesse esse tipo de pergunta?
Muita gente ainda possui uma visão errada da Psicologia
enquanto ciência.
Alguns estereótipos criados pela crença popular fazem com
que não entendamos sua finalidade nem sua seriedade quanto à contribuição para
a justiça com melhores decisões sobre assuntos que envolvam aspectos
psicológicos.
Nesta seção apresentaremos a história da Psicologia e seus
primeiros teóricos, iremos abordar a Psicologia enquanto ciência, distinguindo
o que conhecemos como senso comum, apontando características que irão dar
sustentação para o Direito fundamentar muitos entendimentos sobre assuntos
jurídicos que envolvam a Psicologia.
CARÁTER CIENTÍFICO DA PSICOLOGIA
A psicologia, enquanto ciência, é uma área de estudos
relativamente nova quando comparada com outros saberes científicos, e se
encontra ainda em desenvolvimento. Sua definição atual a caracteriza como a
ciência que estuda o comportamento humano e as funções mentais.
No transcorrer da história, muitas foram as teorias que
buscaram compreender o comportamento humano. Por séculos, conceitos como
personalidade, emoção, sentimento e outros, foram objetos de reflexão na
Filosofia, ou domínio de outros saberes de matizes místicos e religiosos. A
própria definição do termo Psicologia, originado do grego Psiché (alma) e logos
(estudo), que literalmente a define como “estudo da alma”, sugere a origem
mítico-filosófica desta área de conhecimento.
Apesar do termo Psicologia ser “estudo da alma”, a ciência
psicológica não objetiva estudar qualquer aspecto que fuja da ciência, como
fenômenos místicos, paranormais ou fantásticos.
Sócrates (469-399 a.C.) propôs o conceito de razão
definindo-a como característica essencialmente humana, que faz do homem um ser
superior aos seus instintos, ao contrário dos animais. Tal conceito foi
aperfeiçoado por seu discípulo, Platão (428-348 a.C.) que a definiu como um dos
aspectos da “alma”, que se separava do corpo após a morte. Aristóteles (384-322
a.C.), também discípulo de Platão, formulou seu conceito de “alma”. Para ele a
alma seria inseparável do corpo e presente em todos os seres vivos, pois, para
este filósofo, a alma é o princípio da vida, dividida em vegetativa, perceptiva
e racional.
Percebe-se que esses filósofos já falavam de funções
mentais e aspectos comportamentais, mas não tinham como fundamentar de forma
lógica e com fatos comprováveis o que afirmavam, e assim, a Psicologia
permaneceu dentro do arcabouço da Filosofia, e por lá permaneceu até o século
XIX.
Neste momento, gostaríamos de dar uma breve pausa na
Psicologia para falar um pouco sobre o surgimento da ciência nos moldes como a
conhecemos atualmente, pois para falarmos de Psicologia como ciência no século
XIX, teremos que entender o porquê de eventos ocorridos séculos antes terem
sido importantes para preparar a Psicologia a se firmar como uma ciência,
alguns séculos depois.
A maneira como concebemos ciência atualmente, teve início
na Europa, no final do século XV, em um período histórico chamado Renascimento.
A Europa, até então, vivia sob a influência da Igreja Católica, sendo que esta
detinha o controle do conhecimento e da fé das pessoas, exercendo enorme poder
sobre assuntos políticos e culturais.
Foi ao final desse período de hegemonia da Igreja, chamado
Idade Média, que surgiu o Renascimento, período em que artistas e cientistas
voltaram a valorizar em seus trabalhos conceitos propostos na antiguidade
relacionados ao mundo e ao homem, em detrimento do conhecimento dogmático
baseado na compreensão de mundo e de Deus, imposto pela Igreja até então. Foi
neste período que surgiram Copérnico (1473-1543), Leonardo da Vinci
(1542-1519), Galileu (1564-1642), e outros estudiosos que começaram a sistematizar
os conhecimentos adquiridos por meio das observações dos fenômenos naturais.
Muitas áreas das ciências, como a Astronomia, a Biologia e a Anatomia, se
consolidaram como corpo de conhecimentos neste período.
Descartes (1596-1650), outro filósofo desse período, tal
qual o filósofo Platão, propõe o conceito de alma pensante, separada do corpo e
constituinte do verdadeiro ser humano. Este pensamento concebe o corpo como uma
carcaça que abriga a alma e perde sua finalidade quando morre. Se por um lado
isso fez com que a “alma” ficasse cada vez mais inatingível para o estudo, por
ser de domínio da fé e do sobrenatural, por outro lado, pesquisas em cadáveres,
impossíveis de serem realizadas antes dessa proposta, possibilitaram um maior
conhecimento em Anatomia e Fisiologia que proporcionaram informações
importantíssimas sobre o sistema nervoso e outras áreas diretamente ligadas à
futura ciência chamada Psicologia.
E assim, a história transcorre até chegarmos ao fatídico
final do século XIX, quando enfim, a Psicologia dá seus primeiros passos rumo à
galeria das ciências da humanidade.
O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
Com o avanço dos estudos da Fisiologia do sistema nervoso, muitos
cientistas começaram a se embrenhar no estudo das estruturas cerebrais e o
funcionamento destas ao mesmo tempo em que buscaram observar padrões no comportamento
humano que fossem comuns a todos.
Em 1879, na Universidade de Leipzig, na Alemanha, o
professor Wilhelm Wundt (1832-1920) junto com dois assistentes, iniciam as
atividades do considerado primeiro laboratório de Psicologia Experimental da
história. Seu método inicial de estudo se baseava em mensurar processos mentais
ESTRUTURAIS como os reflexos, pensamentos e sentimentos, por meio do uso da
introspecção, uma técnica que sujeitos treinados buscavam observar suas reações
mentais diante de estímulos previamente estabelecidos para que fossem
posteriormente catalogados pelos pesquisadores.
Um discípulo de Wundt, o inglês Edward B. Titchener
(1867-1927) nomeou esta primeira corrente de pensamento da Psicologia de
Estruturalismo, definindo como a busca da “ESTRUTURA da mente”.
Com o tempo, os estudiosos do Estruturalismo começaram a
constatar que a técnica da introspecção se mostrava ineficaz, pois precisava de
pessoas treinadas para realizá-la, o que restringia a pesquisa de Psicologia
para pessoas com dificuldade ou mesmo impossibilidade de serem treinadas, como
crianças e animais.
Uma outra corrente teórica em Psicologia, proposta no
alvorecer da ciência psicológica, foi o Funcionalismo e seu representante foi
William James (1842-1910), psicólogo norte-americano que, influenciado por
Charles Darwin, entendia que o pensamento era consequência da evolução da
espécie e, da mesma forma que o processo evolucionário criou o ouvido com a
FUNÇÃO de captar as ondas sonoras, nossa consciência é resultado da evolução da
espécie humana, e tem a FUNÇÃO de nos adaptar ao presente pelas vivências do passado,
assim como nos dar subsídios a partir dessa vivência para planejarmos o futuro.
A linhas de pesquisa de Wundt e James mantiveram-se fortes
no meio acadêmico até a década de 1920, quando Watson (1878-1958) propôs uma
nova forma de estudo em Psicologia, tendo como objeto o COMPORTAMENTO
estritamente observável. Essa mudança de foco foi ao encontro de uma premissa importante
no estudo da ciência que versa sobre a importância do registro dos fatos
estritamente observáveis.
Considerando que não existe uma forma 100% eficaz de se
registrar objetivamente um fenômeno interno, como o pensamento e o sentimento,
o mesmo não se pode ser dito do comportamento (behavior em inglês) que o
indivíduo tem diante das situações do ambiente. Watson denominou esta corrente
da Psicologia como Behaviorismo e teve como seu maior representante B. F.
Skinner.