Aula 01 Introdução à psicologia

TEMA: Introdução à Psicologia

 

Nossa aula foi:

quarta-feira, 10 de agosto de 2022.


MATERIAL

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Renata, advogada recém-formada conduz Célia, sua primeira cliente, para uma consulta com Marina, psicóloga nomeada como perita judicial em ação que determinará se Célia continuará com a guarda de seus filhos. Enquanto Renata dirige seu carro a caminho do consultório, ela esclarece para sua cliente:

- Célia, você irá conversar um pouco com a psicóloga nomeada pelo juiz, a Dra. Marina. Você deverá responder a todas as perguntas que ela fizer. Isso vai ajudar ela te conhecer melhor. Fica tranquila, pois eu sei que você não tem nenhum problema psicológico, mas ela é psicóloga e vai poder confirmar isso por meio de um relatório.

Muito desconfiada, Célia não vê com bons olhos o fato de estar sendo avaliada por psicólogos nesta disputa judicial, pois ela vê o psicólogo como uma espécie de “médico de doido” e acredita que nunca fez algo desatinado que justificasse este tipo de constrangimento.

- Será que ela pode achar alguma loucura na minha cabeça, Doutora? – pergunta Célia. Será que ela pode me internar num hospício?

Imagine-se no lugar de Renata. Que resposta você poderia dar para a sua cliente caso ela lhe fizesse esse tipo de pergunta?

Muita gente ainda possui uma visão errada da Psicologia enquanto ciência.

Alguns estereótipos criados pela crença popular fazem com que não entendamos sua finalidade nem sua seriedade quanto à contribuição para a justiça com melhores decisões sobre assuntos que envolvam aspectos psicológicos.

Nesta seção apresentaremos a história da Psicologia e seus primeiros teóricos, iremos abordar a Psicologia enquanto ciência, distinguindo o que conhecemos como senso comum, apontando características que irão dar sustentação para o Direito fundamentar muitos entendimentos sobre assuntos jurídicos que envolvam a Psicologia.

 

CARÁTER CIENTÍFICO DA PSICOLOGIA

A psicologia, enquanto ciência, é uma área de estudos relativamente nova quando comparada com outros saberes científicos, e se encontra ainda em desenvolvimento. Sua definição atual a caracteriza como a ciência que estuda o comportamento humano e as funções mentais.

No transcorrer da história, muitas foram as teorias que buscaram compreender o comportamento humano. Por séculos, conceitos como personalidade, emoção, sentimento e outros, foram objetos de reflexão na Filosofia, ou domínio de outros saberes de matizes místicos e religiosos. A própria definição do termo Psicologia, originado do grego Psiché (alma) e logos (estudo), que literalmente a define como “estudo da alma”, sugere a origem mítico-filosófica desta área de conhecimento.

Apesar do termo Psicologia ser “estudo da alma”, a ciência psicológica não objetiva estudar qualquer aspecto que fuja da ciência, como fenômenos místicos, paranormais ou fantásticos.

Sócrates (469-399 a.C.) propôs o conceito de razão definindo-a como característica essencialmente humana, que faz do homem um ser superior aos seus instintos, ao contrário dos animais. Tal conceito foi aperfeiçoado por seu discípulo, Platão (428-348 a.C.) que a definiu como um dos aspectos da “alma”, que se separava do corpo após a morte. Aristóteles (384-322 a.C.), também discípulo de Platão, formulou seu conceito de “alma”. Para ele a alma seria inseparável do corpo e presente em todos os seres vivos, pois, para este filósofo, a alma é o princípio da vida, dividida em vegetativa, perceptiva e racional.

Percebe-se que esses filósofos já falavam de funções mentais e aspectos comportamentais, mas não tinham como fundamentar de forma lógica e com fatos comprováveis o que afirmavam, e assim, a Psicologia permaneceu dentro do arcabouço da Filosofia, e por lá permaneceu até o século XIX.

Neste momento, gostaríamos de dar uma breve pausa na Psicologia para falar um pouco sobre o surgimento da ciência nos moldes como a conhecemos atualmente, pois para falarmos de Psicologia como ciência no século XIX, teremos que entender o porquê de eventos ocorridos séculos antes terem sido importantes para preparar a Psicologia a se firmar como uma ciência, alguns séculos depois.

A maneira como concebemos ciência atualmente, teve início na Europa, no final do século XV, em um período histórico chamado Renascimento. A Europa, até então, vivia sob a influência da Igreja Católica, sendo que esta detinha o controle do conhecimento e da fé das pessoas, exercendo enorme poder sobre assuntos políticos e culturais.

Foi ao final desse período de hegemonia da Igreja, chamado Idade Média, que surgiu o Renascimento, período em que artistas e cientistas voltaram a valorizar em seus trabalhos conceitos propostos na antiguidade relacionados ao mundo e ao homem, em detrimento do conhecimento dogmático baseado na compreensão de mundo e de Deus, imposto pela Igreja até então. Foi neste período que surgiram Copérnico (1473-1543), Leonardo da Vinci (1542-1519), Galileu (1564-1642), e outros estudiosos que começaram a sistematizar os conhecimentos adquiridos por meio das observações dos fenômenos naturais. Muitas áreas das ciências, como a Astronomia, a Biologia e a Anatomia, se consolidaram como corpo de conhecimentos neste período.

Descartes (1596-1650), outro filósofo desse período, tal qual o filósofo Platão, propõe o conceito de alma pensante, separada do corpo e constituinte do verdadeiro ser humano. Este pensamento concebe o corpo como uma carcaça que abriga a alma e perde sua finalidade quando morre. Se por um lado isso fez com que a “alma” ficasse cada vez mais inatingível para o estudo, por ser de domínio da fé e do sobrenatural, por outro lado, pesquisas em cadáveres, impossíveis de serem realizadas antes dessa proposta, possibilitaram um maior conhecimento em Anatomia e Fisiologia que proporcionaram informações importantíssimas sobre o sistema nervoso e outras áreas diretamente ligadas à futura ciência chamada Psicologia.

E assim, a história transcorre até chegarmos ao fatídico final do século XIX, quando enfim, a Psicologia dá seus primeiros passos rumo à galeria das ciências da humanidade.

 

O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA

Com o avanço dos estudos da Fisiologia do sistema nervoso, muitos cientistas começaram a se embrenhar no estudo das estruturas cerebrais e o funcionamento destas ao mesmo tempo em que buscaram observar padrões no comportamento humano que fossem comuns a todos.

Em 1879, na Universidade de Leipzig, na Alemanha, o professor Wilhelm Wundt (1832-1920) junto com dois assistentes, iniciam as atividades do considerado primeiro laboratório de Psicologia Experimental da história. Seu método inicial de estudo se baseava em mensurar processos mentais ESTRUTURAIS como os reflexos, pensamentos e sentimentos, por meio do uso da introspecção, uma técnica que sujeitos treinados buscavam observar suas reações mentais diante de estímulos previamente estabelecidos para que fossem posteriormente catalogados pelos pesquisadores.

Um discípulo de Wundt, o inglês Edward B. Titchener (1867-1927) nomeou esta primeira corrente de pensamento da Psicologia de Estruturalismo, definindo como a busca da “ESTRUTURA da mente”.

Com o tempo, os estudiosos do Estruturalismo começaram a constatar que a técnica da introspecção se mostrava ineficaz, pois precisava de pessoas treinadas para realizá-la, o que restringia a pesquisa de Psicologia para pessoas com dificuldade ou mesmo impossibilidade de serem treinadas, como crianças e animais.

Uma outra corrente teórica em Psicologia, proposta no alvorecer da ciência psicológica, foi o Funcionalismo e seu representante foi William James (1842-1910), psicólogo norte-americano que, influenciado por Charles Darwin, entendia que o pensamento era consequência da evolução da espécie e, da mesma forma que o processo evolucionário criou o ouvido com a FUNÇÃO de captar as ondas sonoras, nossa consciência é resultado da evolução da espécie humana, e tem a FUNÇÃO de nos adaptar ao presente pelas vivências do passado, assim como nos dar subsídios a partir dessa vivência para planejarmos o futuro.

A linhas de pesquisa de Wundt e James mantiveram-se fortes no meio acadêmico até a década de 1920, quando Watson (1878-1958) propôs uma nova forma de estudo em Psicologia, tendo como objeto o COMPORTAMENTO estritamente observável. Essa mudança de foco foi ao encontro de uma premissa importante no estudo da ciência que versa sobre a importância do registro dos fatos estritamente observáveis.

Considerando que não existe uma forma 100% eficaz de se registrar objetivamente um fenômeno interno, como o pensamento e o sentimento, o mesmo não se pode ser dito do comportamento (behavior em inglês) que o indivíduo tem diante das situações do ambiente. Watson denominou esta corrente da Psicologia como Behaviorismo e teve como seu maior representante B. F. Skinner.